PÁGINA 276 – QUINTA, 8 DE SETEMBRO DE 1881

CIDADE DE COIMBRA – PORTUGAL

4.1. DETALHES DA ADMINISTRAÇÃO DA RÉS PÚBLICA LEÃO DOURADO

Carlão explica a Gustavo e Tobias como é o funcionamento e quais são as regras e obrigações da Leão Dourado. O texto começa a partir da frase que está na página 276 do livro Amor além do Tempo: “Quando voltam, encontram um bilhete preso em um biombo que fica logo na entrada da casa com uma intimação para que todos os moradores compareçam na primeira reunião ordinária da Leão Dourado, que acontecerá no final da tarde, às 17h, na sala de refeições.”

Eles sobem e encontram a porta do quarto de Carlão aberta. Ele está sentado com uma fotografia na mão. Gustavo pede licença e entra. Carlão estica a mão, entregando a foto a Gustavo.

— Essa é a Linda. Há muito tempo eu não retirava da caixa.

Gustavo olha para uma jovem de cabelos negros e traços perfeitos. Devolve a foto para Carlão dizendo:

— Realmente, muito bela.

Carlão guarda-a novamente em um caixa de madeira, abre um sorriso e pergunta no que pode ajudar. Ao ser informado sobre a dúvida dos rapazes, Carlão, solícito como sempre, esclarece:

— Ah, Gustavo. Como havia lhe dito, na nossa Rés publica temos regras e obrigações que devem ser seguidas por todos. Desculpa-me, era para ter te explicado antes, mas me esqueci. Então, vamos aos esclarecimentos. Nossa casa tem um presidente que coordena e controla o seu funcionamento. Os interessados nos cargos devem ser moradores antigos com no mínimo dois anos de casa. Eles se candidatam e é realizada uma eleição, em que, como já disse, todos votam. Ele preside por um ano e, para ajudá-lo no serviço, são nomeados “ministros”: ministro da limpeza, dos negócios exteriores, das relações entre casas, da cultura, das finanças e do trabalho.

Tobias e Gustavo se sentam na cama em frente a Carlão, que continua:

— Os ministros responsáveis por cada função podem indicar um ou mais moradores para contribuir no bom desempenho do trabalho. Cada um destes ministros tem obrigações e responsabilidades a cumprir. Eles são mudados a cada três meses ou imediatamente após alguma incompetência grave. A intenção é que todos os moradores possam desempenhar todos os cargos de nossa casa. Conseguistes entender?

— Mais ou menos – diz Gustavo.

— Vou explicar melhor. O ministro da limpeza é o responsável por fiscalizar e manter a limpeza e a organização da Leão dourado. A limpeza pesada é feita por Joana, que trabalha duas vezes por semana, porém, cada morador deve manter seu quarto limpo e arejado. Cabe a ela também a lavagem das roupas sujas, neste caso, é pago a parte, não está incluído na mensalidade dos moradores. Aqueles que precisarem deste serviço devem deixar as roupas em sacos, próximo da porta do quarto pelo lado de dentro e o pagamento é realizado diretamente com Joana ao final do mês.

Carlão se levanta, enche um copo de água da moringa em sua mesinha de cabeceira, bebe um pouco e continua falando e andando pelo quarto.

— O ministro de negócios exteriores é o responsável pelas compras de insumos, mantimentos e todo o material necessário para a sobrevivência de todos na casa. Este tem que ser um “doutor” diplomático com o dom da palavra para que possa conseguir tudo de qualidade e por um bom preço. – Carlão começa a gargalhar.

— O ministro das relações entre casas é responsável pela união e entrosamento da Leão Dourado com as outras moradias estudantis. Ele organiza reuniões, festas, encontros, serenatas e todos os eventos que acontecem em parceria com mais de uma casa. Já o ministro da cultura cuida dos eventos que acontecem com participação exclusiva da Leão Dourado. Isso inclui todos que eu já citei, mas que tenham somente os nossos moradores. Além dos eventos internos, o ministro da cultura cuida também dos eventos que participamos nas ruas de Coimbra, como serenatas, apostas, caças aos caloiros, disputas e outros.

Carlão bebe o restante da água e finaliza.

— Temos ainda o ministro das finanças que é o responsável por recolher a mensalidade de todos os moradores, além de controlar as contas e os recebimentos; e o ministro do trabalho. Este cuida do serviço e das necessidades dos funcionários. Entendeste agora?

PÁGINA 261 – DOMINGO, 14 DE AGOSTO DE 1881

CIDADE DE COIMBRA – PORTUGAL

3.1. A QUINTA DAS LÁGRIMAS – HISTÓRIA DE PEDRO E INÊS DE CASTRO

Carlão, morador da Res publica Leão Dourado, no passeio com Gustavo e Tobias por Coimbra, relata um pouco da História e das lendas da cidade. O texto começa a partir da frase que está na página 261 do livro Amor além do Tempo: “— Cansados? Ainda quero vos levar em um último local, que tem uma história de final trágico, porém, muito romântica. A famosa história de Pedro e Inês de Castro.”

— Claro que não, mostra-nos tudo. O aprendizado está ótimo – diz Gustavo satisfeito.

— Então… vou levar-vos até a Quinta das Lágrimas, onde tudo aconteceu.

Após caminhar três quadras, chegam a Quinta e novamente Carlão conta a história oficial aliada a popular.

— Essa propriedade denominada no passado como Quinta do Pombal, era a casa de caça da Família Real Portuguesa e nela se encontram as chamadas Fonte dos Amores e Fonte das Lágrimas. Em 1326, a Rainha Santa Isabel mandou construir um canal para levar a água de duas nascentes para o Convento de Santa Clara. O sítio de onde saia a água chamou-se “fonte dos amores”, por ter presenciado a paixão de D. Pedro, neto da rainha, por Inês de Castro. A outra fonte da quinta foi denominada por Luís de Camões como “Fonte das Lágrimas”, referindo que ela nascera das lágrimas de Inês ao ser assassinada. Conhecem essa história? É uma história de amor dramática.

— Não, diz qual é. – Desta vez é Tobias desinibido que pede.

— O Infante Pedro era o futuro rei de Portugal, filho de D. Afonso IV. Eles moravam em Lisboa e como é de costume, foi obrigado a se casar por motivos políticos, com Constança Emanuel, uma nobre castelhana. Entre as damas de companhia de Constança estava Inês de Castro, uma mulher muito linda por quem o príncipe se apaixonou. A jovem correspondeu o sentimento e os dois mantinham um romance nada discreto que chocou toda a corte. Além disso, D. Afonso IV, não estava nada satisfeito com a influência dos dois irmãos de Inês sob Pedro. Para acabar com o romance, Constança quando engravidou convidou Inês de Castro para ser madrinha de seu filho, D. Luís de Portugal.

— O que é isso, que sangue frio! Ela não tinha ciúmes deles? – pergunta Gustavo.

— Não é este o caso. Isso foi uma manobra religiosa. Como sabes, entre padrinhos, madrinhas e os pais da criança cria-se um parentesco moral, ou seja, se eles continuassem juntos após o apadrinhamento, seria considerado como incesto. Esta foi a forma que Constança encontrou para separar os dois. Porém, D. Luís faleceu e o romance continuou. Por fim, o Rei cansado dos mexericos na corte, exilou Inês de Castro em Albuquerque, na fronteira com a Espanha, achando assim que teria paz.

— E ele conseguiu resolver? – pergunta aflito Tobias, que quer logo saber o final.

Carlão gargalha e continua:

— Não. Um ano depois, quando Constança deu à luz ao seu segundo filho, faleceu no parto. Pedro rapidamente mandou buscar Inês de Castro e os dois vieram morar no palácio na Quinta, em Coimbra. O romance dos dois ia muito bem e no período de 1346 a 1354, tiveram quatro filhos. Pedro se recusava a se casar com outra nobre, com o pretexto que ainda sofria por sua esposa falecida. Os filhos ilegítimos de Inês eram uma clara ameaça ao trono de Portugal e surgira também o boato de que a família dela pretendia assassinar o Rei D. Afonso IV. Assim, cedendo à pressão dos fidalgos, o Rei mandou matar Inês de Castro.

Tobias que está compenetrado na história pronuncia um “ohhh”, tapando a boca com as mãos. Carlão e Gustavo desatam a rir.

— No dia 7 de janeiro de 1355, aproveitando que Pedro viajava em uma caçada, três homens a mando do rei emboscaram Inês nos jardins, onde ela e Pedro costumavam se encontrar, a Quinta dos amores, e a assassinam friamente.

— Meu Deus! – mais uma manifestação de Tobias.

— A lenda diz que as lágrimas derramadas teriam criado a fonte e o sangue que escorreu ficou marcado até hoje nessas algas. Vejam!! – diz Carlão, apontando para o fundo.

Tobias se aproxima para olhar dentro da fonte e se assusta ao ver o fundo vermelho. Em seguida, olhando para Carlão, pergunta:

— Nossa! E o que Pedro fez? Se vingou?

— Sim. Quando Pedro voltou da caçada, descobriu o que seu pai fez e revoltado entrou em conflito armado que durou meses, somente cessando com a interferência da Rainha. Dois anos depois, D. Afonso IV morreu e D. Pedro I foi coroado como o oitavo rei de Portugal. Ao assumir o trono, ordenou que cassassem os três homens responsáveis pela morte de Inês. Encontrou dois deles e os assassinou, mandando arrancar o coração de um pelo peito e do outro pelas costas, enquanto Pedro assistia e se banqueteava.

— Ele se vingou mesmo – fala Tobias.

— Mas não foi só isso, Tobias, ainda teve mais. O novo rei afirmou que havia se casado secretamente com Inês de Castro, num dia que não se lembrava e usou a palavra do capelão e do criado para confirmar. Desta forma, D. Inês era uma rainha póstuma. O Rei mandou construir dois túmulos magníficos no convento de Alcobaça – um para ela e outro para ele –, com as sepulturas uma de frente para a outra, para que quando despertassem no juízo final, pudessem se olhar frente a frente. Porém, antes de levar o corpo de D. Inês para o novo túmulo, D. Pedro I colocou o cadáver da amada no trono, obrigando a nobreza portuguesa – sob pena de morte – a realizar a cerimônia de beija mão à Rainha morta.

— Que horror! – diz Tobias.

O relato chocou Gustavo e principalmente Tobias, que horrorizado, com algumas cenas, manifesta-se exageradamente fazendo com que Carlão e Gustavo desatem a rir, sendo acompanhados depois por Tobias.

 — Então, gostaram do que viram? Estes são apenas alguns pontos. Coimbra tem bem mais que isso, mas com o tempo poderão conhecer todos. Agora vamos caminhar de volta a Leão Dourado, estou faminto. Cidinha está preparando uma deliciosa bacalhoada à moda portuguesa. Irão adorar.  

PÁGINA 261 – DOMINGO, 14 DE AGOSTO DE 1881

CIDADE DE COIMBRA – PORTUGAL

2.1. O MILAGRE DAS ROSAS

Carlão, morador da Res publica Leão Dourado, no passeio com Gustavo e Tobias por Coimbra, relata um pouco da História e das lendas da cidade. O texto começa a partir da frase que está na página 261 do livro Amor além do Tempo: “— Ah, sim… Então vamos seguir caminho?”

Ao receber um aceno de cabeça afirmativo, voltam pelas ruas Coruche e Calçada até chegarem ao Largo da Portagem e cruzam o rio Mondego. Mais uma vez, Carlão descreve minuciosamente os detalhes históricos por onde passam, começando pela ponte de Santa Clara e em seguida o Mosteiro de Santa Clara, o velho e o novo. Não se esquece de contar, além da história oficial, as histórias populares, como a lenda portuguesa do Milagre das Rosas.

— Esta é a ponte de Santa Clara e passa sobre rio Mondego. A ponte de ferro como vês agora foi inaugurada em 1875. Porém, antes dela existia outra. A ponte de D. Manuel que foi construída em 1513. Ela tinha 24 arcos, que eram altos suficiente para permitir a passagem das barcas com as velas abertas. Era a ponte mais bonita e mais comprida do país, além de ser o local preferido dos estudantes que frequentavam o Mondego. Eu particularmente acho que a ponte atual perdeu o charme de outrora. Essa gaiola metálica apoiada em pilares de pedra, nada tem de belo como a antiga ponte que vemos retratada em diversas pinturas. Estes são os pontos negativos da modernização, na minha opinião, meu amigo.

Eles andam mais duas quadras, após atravessarem a ponte, para chegar no Mosteiro de Santa Clara e no caminho Carlão fornece suas explicações.

— O Mosteiro é da ordem das irmãs Clarissas, que foi fundada por Santa Clara e São Francisco de Assis, na Itália em 1263. Em Coimbra começou em 1283, quando D. Mor Dias concedeu a carta de licença e construiu uma casa e a igreja em honra de Jesus Cristo, de Santa Maria e de Santa Clara. Em 1292, D. Mor Dias foi excomungado e a igreja informou aos cristãos que evitassem ouvir a missa no Mosteiro. A Rainha Isabel, determinada em manter as Irmãs Clarissas, conseguiu com o papa, licença para refundar o Mosteiro, cuja reconstrução acompanhou de perto. A rainha se casou quando tinha 12 anos por procuração com D. Dinis e teve dois filhos, Constança que se casou com o Rei Fernando IV de Castela e D. Afonso IV, sucessor de D. Dinis ao trono de Portugal e pai de Pedro I, da famosa história de Pedro e Inês de Castro. Essa eu conto daqui a pouquinho quando chegarmos na Quinta das Lágrimas.

Carlão começa a rir. Eles chegam em frente ao Mosteiro e parados o rapaz continua o seu relato.

— D. Dinis morreu em 1325 e após sua morte a rainha recolheu-se no Mosteiro de Santa Clara, vestindo o hábito da Ordem das Clarissas, mas sem fazer os votos. Saiu do Mosteiro somente uma vez, em 1336, pouco antes de sua morte, para ir a Entremoz. Foi informada que seu filho Afonso IV iria entrar em guerra contra D. Afonso XI, filho de Constança, seu neto. Em Entremoz ela faleceu, no dia 4 de julho de 1336, aos 66 anos. Seu corpo foi enviado para Coimbra e sepultado aqui na capela do Mosteiro – diz Carlão apontando. — Quanto ao Mosteiro, este após sofrer por constantes inundações pelo rio Mondego, foi abandonado após ser construído um novo. Aquele ali, estão vendo? – Aponta Carlão. — Aquela imponente construção a umas cinco quadras acima. – Quando confirma que os amigos identificaram, continua seu relato. — Então… as Clarissas se transferiram para o mosteiro novo em 1677 e esse passou a se chamar de Mosteiro de Santa Clara-a-velha, que entrou em processo de abandono e deterioração. O outro passou a ser chamado de Mosteiro de Santa Clara-a-nova.

Eles conhecem o velho Mosteiro e ao sair Carlão ainda conta:

— Isabel era uma rainha muito piedosa, passando grande parte do seu tempo em oração e ajudando aos pobres. Por isso, ainda em vida, era considerada uma santa e sua fama aumentou após sua morte. Vários milagres são atribuídos a ela, como a cura de sua dama de companhia e de diversos leprosos, porém, o mais conhecido e que se tornou uma lenda portuguesa é o Milagre das Rosas. Segundo a lenda, a Rainha saiu do Castelo em uma manhã de inverno para distribuir pães aos necessitados, sendo surpreendida no caminho pelo rei D. Dinis, que lhe questionou o que ela levava em seu manto. A rainha respondeu: “São rosas, meu senhor!” O Rei desconfiado disse: “Rosas, em janeiro?” D. Isabel se vê obrigada a abrir o manto e nele, para sua surpresa, havia rosas ao invés dos pães que ocultara. Este é considerado um dos primeiros milagres dela. Existe ainda uma outra lenda: dizem que quando o seu corpo defunto estava sendo transportado para Coimbra, ele cheirava a rosas. Isabel foi beatificada em 1516, pelo Papa Leão X e canonizada pelo Papa Urbano VIII, em 1625. Hoje em dia, a Rainha Santa Isabel é a padroeira de Coimbra e o dia 4 de julho é festejado na cidade. Os milagres atribuídos a ela trazem peregrinos de diversas partes.

PÁGINA 259 – DOMINGO, 14 DE AGOSTO DE 1881

CIDADE DE COIMBRA – PORTUGAL

1.1. PASSEIO DE GUSTAVO E TOBIAS POR COIMBRA

Carlão, morador da Res publica Leão Dourado, sai com Gustavo e Tobias para apresentar Coimbra e aproveita para contar um pouco da História da cidade para os rapazes. Os relatos começam a partir da frase que está na página 259 do livro Amor além do Tempo: “— Aproveitando, explicarei um pouquinho da história desta bela cidade.”

Enquanto caminham, Carlão relata o passado de Coimbra.

— Coimbra é o berço de seis reis de Portugal. A cidade teve o seu primitivo núcleo de povoamento no alto da colina, a 160 metros de altura, às margens do Rio Mondego. Os romanos a chamaram de Ermínio, por ter sido erguida nesta colina. Com o aumento de sua importância, passou a ser sede de Diocese, substituindo a cidade romana de Conímbriga, de onde deriva o nome Coimbra. Por volta dos anos 700, os mouros invadiram e ela tornou-se um importante entreposto comercial entre o norte cristão e o sul árabe, com uma forte comunidade moçárabe. A cidade cresceu com um traçado sinuoso de ruas estreitas, ligadas por uma teia de becos e travessas, circundada por grandes muralhas de pedra. Algumas ruas acompanham o traçado destas muralhas.

São tantas histórias que, ao se aproximarem do Largo da Paróquia de São Cristóvão, para de andar e continua com suas explicações antes de mostrar o local.

— A muralha foi construída no período romano e ao longo dos séculos seguintes, sob o domínio visigótico, islâmico e cristão, sofreu sucessivas obras de conservação e alterações. Ela percorria 1800 metros, circundando 22 hectares e contava com cinco portas – da Almedina, da Belcouce, da Traição, do Sol e a Porta Nova – além de inúmeras torres. Em 871, tornou-se o condado de Coimbra e em 1064, se não me engano, Fernando Magno de Leão, reconquista a cidade, que renasce como a mais importante abaixo do rio Douro. Com o Condado Portucalense, o conde D. Henrique e a rainha D. Teresa fazem aqui a sua residência e dentro da segurança de suas muralhas, nasce o primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques.

Após alguns minutos, dá uma pausa, dizendo:

— Eu falo demais, não é? Mas adoro repassar conhecimento. Posso continuar? Ou estão cansados? – Começa a gargalhar.

— Claro que sim. Eu gosto sempre de assimilar novos conhecimentos. Pode prosseguir.

— Concordo com Gustavo – diz Tobias timidamente.

— Gostei. Então vos preparais, tenho muito a ensinar – novas gargalhadas.

Carlão aproveita a ânsia dos rapazes e continua descrevendo a história de sua cidade querida: Coimbra.

— Continuando. A cidade cresceu vertiginosamente e no século XII teve sua malha urbana dividida entre a cidade alta e baixa. A Alta ou Almedina, é onde viviam os clérigos, os aristocratas e hoje nós, os estudantes. Do lado de fora das muralhas, temos a Baixa, onde se aglomeravam o povo, os comerciantes e os artesãos. Em meados do século XVI, surgiu a Universidade e a história da cidade passou a girar em torno dela. A UC e a maioria das moradias estudantis estão situadas em Almedina, ou seja, na Alta cidade. Sobre a história da Universidade eu explico no dia em que a visitarmos. Com o surgimento da universidade, a cidade se expandiu fora dos muros e a muralha desapareceu em vários trechos com as reformas sofridas. Coimbra teve tempos difíceis com a invasão francesa e com a extinção das ordens religiosas. Porém, na segunda metade de oitocentos, volta a recuperar o esplendor perdido, surgindo o primeiro telégrafo elétrico na cidade e a iluminação a gás; em 1864 é inaugurado o caminho de ferro e em 1875 nasce a ponte férrea sobre as águas do Mondego. Temos uma população atual de 46 mil almas.

Ao final do relato histórico, Carlão finaliza:

— Pronto. Assim vos situei na história. Agora vamos às construções importantes.

Carlão, com movimentos exagerados dos braços, aponta para a Igreja de São Cristóvão e mais uma vez tece um rosário de informações históricas sobre a localidade. 

Antes de partirem, ainda diz:

— Ah! A Universidade está logo ali atrás, a umas três quadras, pertinho da nossa casa. Então não terás desculpas para atrasos, Gustavo.

Em seguida, seguem a caminhada voltando pela rua Quebra Costas até chegarem à Torre de Almedina. Atravessam por um Arco dentro da muralha, chegam à Porta de Barbacã. Novamente Carlão para em frente aos rapazes e com gestos explica:

— A Porta de Barbacã e a Torre de Almedina faziam parte do sistema defensivo de Coimbra, pertencente à antiga muralha. Essa era a principal porta de entrada da cidade intramuros. Aqui estamos na Baixa de Coimbra.

Após as explicações, fica parado, olhando para a direita e esquerda da rua, falando sozinho. “E agora, eu os levo aonde primeiro? Ah! Já sei!” Depois vira, olhando para Gustavo e Tobias, e diz:

— E agora, eu os levo aonde primeiro? Ah! Já sei.

Depois vira, olhando para Gustavo e Tobias, e diz:

—Vamos subir a rua até a Igreja de Santa Cruz. Falando nisso, essa é a rua da Calçada[1], é uma artéria da cidade de Coimbra, contendo o mesmo traçado desde os tempos medievais. Ela e as ruas contíguas foram alargadas em 1859 a pedido do Presidente da Câmara, por se tratar da estrada principal que liga Lisboa a Porto. Seguiremos pela rua da Calçada, depois pela Rua do Coruche [2] até o Mosteiro de Santa Cruz.

Eles sobem algumas quadras até chegarem a um Largo.

— Este é o Largo de Sansão. Recebeu esse apelido pelo povo devido a uma fonte de mesmo nome instalada em 1592, e esta é a Igreja de Santa Cruz. O altar abriga os túmulos dos dois primeiros reis de Portugal: D. Afonso Henriques e D. Sancho I. Ela faz parte do Mosteiro de Santa Cruz, fundado em 1131 no exterior das muralhas.

Eles conhecem toda a Igreja, bem como os túmulos, e, ao saírem novamente ao Largo, Carlão diz:

— Ah! Esqueci-me de mencionar: aquela rua ali – apontando para a esquina à direita – é a rua Santa Sofia[3]. Ela foi construída no intento de abrigar de um lado da rua os colégios religiosos e do outro as habitações para professores e estudantes.


[1] Rua da Calçada – Atual Rua Ferreira Borges. Esta é a rua central de Coimbra, a rua que liga a Portagem à rua da Sofia. Corresponde, possivelmente, ao traçado da antiga estrada romana que servia a cidade.

[2] Rua do Coruche – Atual Rua Visconde da Luz.

[3] Rua Santa Sofia – Atual Rua Sofia.