François Pierre de La Varenne

François Pierre de La Varenne (1615–1678) ocupa um lugar central na história da gastronomia por representar a passagem definitiva da cozinha medieval, marcada pela exuberância de especiarias, pela mistura de sabores agridoces e por técnicas pouco sistematizadas, para a cozinha moderna, mais racional, organizada e orientada para o sabor natural dos ingredientes. Conforme observam Flandrin e Montanari (2001), a obra de La Varenne não apenas marcou uma ruptura culinária, mas inaugurou um modo de pensar a cozinha que influenciaria profundamente os séculos seguintes.

A ruptura com a tradição medieval

Ao longo da Idade Média, a culinária aristocrática europeia caracterizava-se pela abundância simbólica, pelo uso ostensivo de especiarias e pela valorização de sabores intensos, frequentemente sobrepostos ao gosto natural dos alimentos. A partir do século XVII, esse modelo começa a perder centralidade, dando lugar a um novo ideal culinário pautado pelo equilíbrio, pela harmonia e pela valorização do sabor próprio dos ingredientes. Esse movimento está diretamente ligado às transformações culturais da França moderna e encontra em La Varenne um de seus principais formuladores, responsável por inaugurar uma nova lógica gastronômica baseada na clareza dos sabores e na técnica refinada (FLANDRIN; MONTANARI, 2001; MONTANARI, 2008).

Em Le Cuisinier François (1651), sua obra fundamental, ele apresenta um repertório técnico que privilegia o frescor, a simplicidade e a precisão, princípios que se tornariam os alicerces da culinária francesa. O livro também demonstra uma mudança cultural mais ampla: o refinamento do paladar europeu e o afastamento dos excessos medievais, conforme amplamente discutido por historiadores como Flandrin e Montanari (2001).

Livro de confeitaria escrito por La Varenne, publicado em 1653

A consolidação de técnicas modernas

La Varenne é frequentemente lembrado por ter sistematizado técnicas que hoje parecem elementares, mas que, em seu contexto histórico, representaram uma profunda transformação da prática culinária. Entre elas destaca-se o roux, mistura de manteiga e farinha destinada a espessar molhos. Embora já existissem preparações semelhantes em períodos anteriores, foi La Varenne quem descreveu esse procedimento de forma clara e regular, contribuindo para a padronização técnica que serviria de base à posterior organização dos molhos clássicos da cozinha francesa. A exposição metódica de fundos, caldos e agentes de ligação marcou um momento decisivo na consolidação da culinária francesa como um corpo de saber técnico estruturado, superando a lógica exclusivamente empírica e oral da tradição medieval (FLANDRIN; MONTANARI, 2001; TREFZER, 2009).

Outras contribuições importantes incluem:

  • o uso sistemático de ervas frescas, como salsa, cebolinha e estragão, em substituição às especiarias excessivamente exóticas do período anterior;
  • a valorização da manteiga e das gorduras animais locais, marcando uma diferença decisiva em relação à cozinha mediterrânea;
  • a separação mais clara entre pratos doces e salgados;
  • a organização de receitas com descrições objetivas e ordem lógica das etapas.

Conjunto dessas transformações, tais práticas indicam a consolidação de um novo modelo culinário baseado no método, na técnica e na clareza dos sabores, características que marcam a transição para a chamada cozinha moderna (FLANDRIN; MONTANARI, 2001; MONTANARI, 2008).

A vida profissional e o ambiente aristocrático

La Varenne trabalhou para figuras de alta nobreza, especialmente o marquês d’Uxelles. Desse ambiente surgiu a preparação duxelles, uma combinação de cogumelos picados, manteiga e ervas que se tornaria referência em bases aromáticas francesas. Mais do que uma invenção culinária, a duxelles simboliza a nova lógica francesa: ingredientes locais, técnica apurada e equilíbrio.

O contexto aristocrático também possibilitou ao autor acesso a ingredientes, utensílios e uma equipe de cozinha estruturada, algo essencial para que suas técnicas fossem desenvolvidas, registradas e difundidas. Como apontam Flandrin e Montanari (2001), a profissionalização das cozinhas aristocráticas foi determinante para o nascimento da figura do “chef moderno”, papel que La Varenne representou de maneira pioneira.

Um novo modelo editorial

Além do conteúdo culinário, Le Cuisinier François se destaca como marco editorial na história da gastronomia. La Varenne organiza a obra de forma objetiva, com vocabulário técnico relativamente acessível e descrições diretas das etapas de preparo, rompendo com a tradição de textos pouco sistematizados da culinária anterior. Essa forma de apresentação exerceu influência duradoura sobre os livros de cozinha que se seguiram, inclusive os de autores como Massialot e Menon, ao estabelecer um modelo de escrita culinária voltado à clareza, à transmissão do método e à padronização técnica. Tal estrutura contribuiu para consolidar o livro de culinária como instrumento pedagógico e profissional, e não apenas como registro doméstico ou aristocrático de receitas (FLANDRIN; MONTANARI, 2001; TREFZER, 2009).

O legado e a influência duradoura

A influência de La Varenne estendeu-se por todo o século XVIII e alcançou o século XIX, sendo retomada, sistematizada e ampliada por autores fundamentais como Antonin Carême e, posteriormente, Auguste Escoffier. O modelo culinário inaugurado no século XVII, marcado pelo respeito ao sabor próprio dos ingredientes, pelo uso controlado de ervas e pela clareza técnica dos procedimentos, permaneceu como fundamento conceitual da cozinha francesa clássica e de sua evolução posterior. Como destacam os estudos historiográficos sobre a alimentação europeia, essa herança estruturou a passagem da prática empírica para uma culinária baseada em método, racionalidade e técnica codificada (FLANDRIN; MONTANARI, 2001; TREFZER, 2009).

Nesse sentido, a obra de La Varenne não transformou apenas as formas de cozinhar, mas expressou uma nova relação entre cozinha, sociedade e cultura, alinhada aos valores de precisão, estética e racionalidade próprios da modernidade ocidental. Esses princípios moldariam, ao longo dos séculos seguintes, a organização da gastronomia francesa e seu papel como referência central da alta cozinha internacional (MONTANARI, 2008).

Por essas razões, François Pierre de La Varenne é reconhecido como um dos fundadores da culinária francesa moderna e uma figura indispensável para compreender o desenvolvimento histórico das técnicas, sabores e métodos que ainda hoje definem a alta cozinha.

Para saber mais sobre Gastronomia acesse: Conceitos e Teorias


Eu sou graduada e pós graduada na área de gastronomia e compilei todos os anos de estudo em apostilas que estou transformando em um livro “Diário da Gastronomia. De Tudo… Um Pouco.” (Para saber mais acesse a página A Gastrônoma, A Autora, A Terapeuta, A Multiface). Através deste site postarei informações importantes que contribuirá para aumentar o conhecimento dos leitores na área de gastronomia A parte teórica pode ser encontrada na páginaConceitos e Teorias“. Quanto à prática, os leitores podem ir treinando com asReceitaspostadas. Todas as receitas foram previamente testadas.


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FONTES IMAGENS: Adriana Tenchini


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