PÁGINA 261 – DOMINGO, 14 DE AGOSTO DE 1881

CIDADE DE COIMBRA – PORTUGAL

2.1. O MILAGRE DAS ROSAS

Carlão, morador da Res publica Leão Dourado, no passeio com Gustavo e Tobias por Coimbra, relata um pouco da História e das lendas da cidade. O texto começa a partir da frase que está na página 261 do livro Amor além do Tempo: “— Ah, sim… Então vamos seguir caminho?”

Ao receber um aceno de cabeça afirmativo, voltam pelas ruas Coruche e Calçada até chegarem ao Largo da Portagem e cruzam o rio Mondego. Mais uma vez, Carlão descreve minuciosamente os detalhes históricos por onde passam, começando pela ponte de Santa Clara e em seguida o Mosteiro de Santa Clara, o velho e o novo. Não se esquece de contar, além da história oficial, as histórias populares, como a lenda portuguesa do Milagre das Rosas.

— Esta é a ponte de Santa Clara e passa sobre rio Mondego. A ponte de ferro como vês agora foi inaugurada em 1875. Porém, antes dela existia outra. A ponte de D. Manuel que foi construída em 1513. Ela tinha 24 arcos, que eram altos suficiente para permitir a passagem das barcas com as velas abertas. Era a ponte mais bonita e mais comprida do país, além de ser o local preferido dos estudantes que frequentavam o Mondego. Eu particularmente acho que a ponte atual perdeu o charme de outrora. Essa gaiola metálica apoiada em pilares de pedra, nada tem de belo como a antiga ponte que vemos retratada em diversas pinturas. Estes são os pontos negativos da modernização, na minha opinião, meu amigo.

Eles andam mais duas quadras, após atravessarem a ponte, para chegar no Mosteiro de Santa Clara e no caminho Carlão fornece suas explicações.

— O Mosteiro é da ordem das irmãs Clarissas, que foi fundada por Santa Clara e São Francisco de Assis, na Itália em 1263. Em Coimbra começou em 1283, quando D. Mor Dias concedeu a carta de licença e construiu uma casa e a igreja em honra de Jesus Cristo, de Santa Maria e de Santa Clara. Em 1292, D. Mor Dias foi excomungado e a igreja informou aos cristãos que evitassem ouvir a missa no Mosteiro. A Rainha Isabel, determinada em manter as Irmãs Clarissas, conseguiu com o papa, licença para refundar o Mosteiro, cuja reconstrução acompanhou de perto. A rainha se casou quando tinha 12 anos por procuração com D. Dinis e teve dois filhos, Constança que se casou com o Rei Fernando IV de Castela e D. Afonso IV, sucessor de D. Dinis ao trono de Portugal e pai de Pedro I, da famosa história de Pedro e Inês de Castro. Essa eu conto daqui a pouquinho quando chegarmos na Quinta das Lágrimas.

Carlão começa a rir. Eles chegam em frente ao Mosteiro e parados o rapaz continua o seu relato.

— D. Dinis morreu em 1325 e após sua morte a rainha recolheu-se no Mosteiro de Santa Clara, vestindo o hábito da Ordem das Clarissas, mas sem fazer os votos. Saiu do Mosteiro somente uma vez, em 1336, pouco antes de sua morte, para ir a Entremoz. Foi informada que seu filho Afonso IV iria entrar em guerra contra D. Afonso XI, filho de Constança, seu neto. Em Entremoz ela faleceu, no dia 4 de julho de 1336, aos 66 anos. Seu corpo foi enviado para Coimbra e sepultado aqui na capela do Mosteiro – diz Carlão apontando. — Quanto ao Mosteiro, este após sofrer por constantes inundações pelo rio Mondego, foi abandonado após ser construído um novo. Aquele ali, estão vendo? – Aponta Carlão. — Aquela imponente construção a umas cinco quadras acima. – Quando confirma que os amigos identificaram, continua seu relato. — Então… as Clarissas se transferiram para o mosteiro novo em 1677 e esse passou a se chamar de Mosteiro de Santa Clara-a-velha, que entrou em processo de abandono e deterioração. O outro passou a ser chamado de Mosteiro de Santa Clara-a-nova.

Eles conhecem o velho Mosteiro e ao sair Carlão ainda conta:

— Isabel era uma rainha muito piedosa, passando grande parte do seu tempo em oração e ajudando aos pobres. Por isso, ainda em vida, era considerada uma santa e sua fama aumentou após sua morte. Vários milagres são atribuídos a ela, como a cura de sua dama de companhia e de diversos leprosos, porém, o mais conhecido e que se tornou uma lenda portuguesa é o Milagre das Rosas. Segundo a lenda, a Rainha saiu do Castelo em uma manhã de inverno para distribuir pães aos necessitados, sendo surpreendida no caminho pelo rei D. Dinis, que lhe questionou o que ela levava em seu manto. A rainha respondeu: “São rosas, meu senhor!” O Rei desconfiado disse: “Rosas, em janeiro?” D. Isabel se vê obrigada a abrir o manto e nele, para sua surpresa, havia rosas ao invés dos pães que ocultara. Este é considerado um dos primeiros milagres dela. Existe ainda uma outra lenda: dizem que quando o seu corpo defunto estava sendo transportado para Coimbra, ele cheirava a rosas. Isabel foi beatificada em 1516, pelo Papa Leão X e canonizada pelo Papa Urbano VIII, em 1625. Hoje em dia, a Rainha Santa Isabel é a padroeira de Coimbra e o dia 4 de julho é festejado na cidade. Os milagres atribuídos a ela trazem peregrinos de diversas partes.

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