PÁGINA 261 – DOMINGO, 14 DE AGOSTO DE 1881

CIDADE DE COIMBRA – PORTUGAL

3.1. A QUINTA DAS LÁGRIMAS – HISTÓRIA DE PEDRO E INÊS DE CASTRO

Carlão, morador da Res publica Leão Dourado, no passeio com Gustavo e Tobias por Coimbra, relata um pouco da História e das lendas da cidade. O texto começa a partir da frase que está na página 261 do livro Amor além do Tempo: “— Cansados? Ainda quero vos levar em um último local, que tem uma história de final trágico, porém, muito romântica. A famosa história de Pedro e Inês de Castro.”

— Claro que não, mostra-nos tudo. O aprendizado está ótimo – diz Gustavo satisfeito.

— Então… vou levar-vos até a Quinta das Lágrimas, onde tudo aconteceu.

Após caminhar três quadras, chegam a Quinta e novamente Carlão conta a história oficial aliada a popular.

— Essa propriedade denominada no passado como Quinta do Pombal, era a casa de caça da Família Real Portuguesa e nela se encontram as chamadas Fonte dos Amores e Fonte das Lágrimas. Em 1326, a Rainha Santa Isabel mandou construir um canal para levar a água de duas nascentes para o Convento de Santa Clara. O sítio de onde saia a água chamou-se “fonte dos amores”, por ter presenciado a paixão de D. Pedro, neto da rainha, por Inês de Castro. A outra fonte da quinta foi denominada por Luís de Camões como “Fonte das Lágrimas”, referindo que ela nascera das lágrimas de Inês ao ser assassinada. Conhecem essa história? É uma história de amor dramática.

— Não, diz qual é. – Desta vez é Tobias desinibido que pede.

— O Infante Pedro era o futuro rei de Portugal, filho de D. Afonso IV. Eles moravam em Lisboa e como é de costume, foi obrigado a se casar por motivos políticos, com Constança Emanuel, uma nobre castelhana. Entre as damas de companhia de Constança estava Inês de Castro, uma mulher muito linda por quem o príncipe se apaixonou. A jovem correspondeu o sentimento e os dois mantinham um romance nada discreto que chocou toda a corte. Além disso, D. Afonso IV, não estava nada satisfeito com a influência dos dois irmãos de Inês sob Pedro. Para acabar com o romance, Constança quando engravidou convidou Inês de Castro para ser madrinha de seu filho, D. Luís de Portugal.

— O que é isso, que sangue frio! Ela não tinha ciúmes deles? – pergunta Gustavo.

— Não é este o caso. Isso foi uma manobra religiosa. Como sabes, entre padrinhos, madrinhas e os pais da criança cria-se um parentesco moral, ou seja, se eles continuassem juntos após o apadrinhamento, seria considerado como incesto. Esta foi a forma que Constança encontrou para separar os dois. Porém, D. Luís faleceu e o romance continuou. Por fim, o Rei cansado dos mexericos na corte, exilou Inês de Castro em Albuquerque, na fronteira com a Espanha, achando assim que teria paz.

— E ele conseguiu resolver? – pergunta aflito Tobias, que quer logo saber o final.

Carlão gargalha e continua:

— Não. Um ano depois, quando Constança deu à luz ao seu segundo filho, faleceu no parto. Pedro rapidamente mandou buscar Inês de Castro e os dois vieram morar no palácio na Quinta, em Coimbra. O romance dos dois ia muito bem e no período de 1346 a 1354, tiveram quatro filhos. Pedro se recusava a se casar com outra nobre, com o pretexto que ainda sofria por sua esposa falecida. Os filhos ilegítimos de Inês eram uma clara ameaça ao trono de Portugal e surgira também o boato de que a família dela pretendia assassinar o Rei D. Afonso IV. Assim, cedendo à pressão dos fidalgos, o Rei mandou matar Inês de Castro.

Tobias que está compenetrado na história pronuncia um “ohhh”, tapando a boca com as mãos. Carlão e Gustavo desatam a rir.

— No dia 7 de janeiro de 1355, aproveitando que Pedro viajava em uma caçada, três homens a mando do rei emboscaram Inês nos jardins, onde ela e Pedro costumavam se encontrar, a Quinta dos amores, e a assassinam friamente.

— Meu Deus! – mais uma manifestação de Tobias.

— A lenda diz que as lágrimas derramadas teriam criado a fonte e o sangue que escorreu ficou marcado até hoje nessas algas. Vejam!! – diz Carlão, apontando para o fundo.

Tobias se aproxima para olhar dentro da fonte e se assusta ao ver o fundo vermelho. Em seguida, olhando para Carlão, pergunta:

— Nossa! E o que Pedro fez? Se vingou?

— Sim. Quando Pedro voltou da caçada, descobriu o que seu pai fez e revoltado entrou em conflito armado que durou meses, somente cessando com a interferência da Rainha. Dois anos depois, D. Afonso IV morreu e D. Pedro I foi coroado como o oitavo rei de Portugal. Ao assumir o trono, ordenou que cassassem os três homens responsáveis pela morte de Inês. Encontrou dois deles e os assassinou, mandando arrancar o coração de um pelo peito e do outro pelas costas, enquanto Pedro assistia e se banqueteava.

— Ele se vingou mesmo – fala Tobias.

— Mas não foi só isso, Tobias, ainda teve mais. O novo rei afirmou que havia se casado secretamente com Inês de Castro, num dia que não se lembrava e usou a palavra do capelão e do criado para confirmar. Desta forma, D. Inês era uma rainha póstuma. O Rei mandou construir dois túmulos magníficos no convento de Alcobaça – um para ela e outro para ele –, com as sepulturas uma de frente para a outra, para que quando despertassem no juízo final, pudessem se olhar frente a frente. Porém, antes de levar o corpo de D. Inês para o novo túmulo, D. Pedro I colocou o cadáver da amada no trono, obrigando a nobreza portuguesa – sob pena de morte – a realizar a cerimônia de beija mão à Rainha morta.

— Que horror! – diz Tobias.

O relato chocou Gustavo e principalmente Tobias, que horrorizado, com algumas cenas, manifesta-se exageradamente fazendo com que Carlão e Gustavo desatem a rir, sendo acompanhados depois por Tobias.

 — Então, gostaram do que viram? Estes são apenas alguns pontos. Coimbra tem bem mais que isso, mas com o tempo poderão conhecer todos. Agora vamos caminhar de volta a Leão Dourado, estou faminto. Cidinha está preparando uma deliciosa bacalhoada à moda portuguesa. Irão adorar.  

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